O artista do acaso
Texto que fiz sobre o trabalho do pinto Rodolpho Parigi.
ARTES PLÁTICAS
Artista do acaso
Rodolpho Parigi, que se interessou pela arte depois dos 20 anos, faz parte hoje da retomada da pintura no País

Filipe Serrano
A trajetória artística do pintor brasileiro Rodolpho Parigi é cercada de acasos. Muito bem sucedidos, por sinal, já que foi a apenas seis anos, em uma viagem à Espanha, que Parigi se despertou pela arte. Por acaso, claro. Ele até costuma a confessar que só conhecia Picassos e Dalis antes daquele momento, ao vislumbrar pinturas e obras arquitetônicas em Madri e Barcelona. Hoje, aos 31 anos, Parigi já carrega o fardo – e uma tatuagem no braço direito – de ser uma das maiores apostas da pintura brasileira contemporânea. E se prepara para abrir em fevereiro do ano que vem a sua primeira exposição individual. “Ainda estou no começo da história”, ele diz.
Suas obras, que refletem um auto-retrato segundo ele, seguem a mesma instantaneidade que cerca sua vida. O trabalho de produção não leva nenhum tipo de rascunho prévio e sempre é acompanhado pela sonoridade das guitarras e baterias da banda White Stripes e outros rocks norte-americanos. A trilha musical dá o tom performático no trabalho cujo resultado na tela é uma mistura de cores vibrantes e formas ora gelatinosas, ora geométricas.
Tonalidades roxas, rosas – suas preferidas – e em outras cores variadas e claras são predominantes nas obras de Parigi. Ele define-as, com o pudor de quem não gosta de explicar seu trabalho, como um geometrismo colorido, ou uma pintura com aspecto.
O geometrismo anamórfico é a característica que mais desassocia Parigi de outros pintores expoentes de sua geração, como Marina Heigantz e Rodrigo Bivar. Ambos formam junto com Parigi e mais cinco pintores o grupo 2000e8, apenas de novos artistas. Enquanto os contemporâneos de Parigi seguem modelos mais figurativos na pintura, com retratos e expondo os traços dos pincéis, o artista prefere se assemelhar com a arte digital, na qual abusa-se das ferramentas de colagem e edição de imagem no Photoshop. A intenção de Parigi é exatamente fazer uma pintura com Photoshop, um trabalho de possibilidades, com elementos fotográficos, tridimensionais e até da colagem.

Os elementos abstratos e tridimensionais de Parigi, com aspecto psicodélico, não são experimentações novas, e até são bastante explorados atualmente nas artes gráficas, no design e, principalmente, no graffiti brasileiro que vive um auge desde o início da década, quando foi redescoberto. Grafiteiros mais abstratos como Highraff, Hebert Baglione, Zezão, Boleta e Bugre também são bastante influenciados por desenhos anamórficos e delineados e pintam nos muros formas viçosas semelhantes às que Parigi esculpe com o pincel.
O pintor também não se restringe ao espaço da tela. Em uma de suas séries, chamada Apropri…ação, ele leva seus desenhos às paredes para ampliar os limites e abandona as cores fortes. Ele prefere explorar neste trabalho a dualidade do branco-e-preto somada os ângulos retos das paredes e à forma cúbica do suporte, algo bastante semelhante às obras de Regina Silveira, porém, com o peso de seus traços e desenhos únicos. E também sem planejamento, sem um projeto da obra, ao acaso.
Apesar de Parigi também usar o suporte da parede e elementos abstratos, ele afirma que não gosta de graffiti e até vê essa arte de rua com rancor. Os desenhos nos muros não o atraem, mas Parigi vê uma beleza nas pixações (como os pichadores costumam descrever) com letras estilizadas e criativas criadas pelos adolescentes de periferia que escalam prédios.
O artista se destaca porque traz uma nova experiência desses elementos psicodélicos badalados. Consegue representar muitos tipos de formas, sem a lógica do graffiti, mas criando a sua própria característica. Formas líquidas em primeiro plano que conversam com traços retos não-paralelos que preenchem o fundo, e questionam até mesmo seus próprios elementos.
Ele acredita que o trabalho artístico serve exatamente para questionar, para “desnudar mundos possíveis”. Sua intenção, ele diz, não é mudar a sociedade, mas reordená-la. É exatamente isso que Parigi faz. Aprende fazendo. E cria sua própria lógica.